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Europa rende-se ao open data em Lisboa

Lisboa converte-se no palco principal do debate open data europeu. O workshop da plataforma europeia «Share-PSI 2.0» junta no LNEC dezenas de especialistas de toda a europa, com as experiências e projetos de Portugal em grande destaque.
04.12.2014
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Encorajar a utilização dos dados públicos abertos para o desenvolvimento de aplicações comerciais. Este foi o tema que juntou em Lisboa dezenas de especialistas europeus no domínio dos dados abertos, no âmbito do workshop europeu «Share-PSI 2.0».

O Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) foi o palco escolhido para os dois dias de debate e partilha de experiências de uma rede europeia que reune departamentos governamentais, organizações privadas, instituições académicas e diversos grupos de interesse no contexto da diretiva europeia PSI (Public Sector Information).

A Agência para a Modernização Administrativa (AMA), enquanto anfitriã do evento, assumiu a partilha da experiência nacional nos vários domínios da abertura de dados, desde a estratégia das políticas conduzidas pelo Governo até aos projetos e iniciativas impulsionados pelo setor privado, academia e sociedade civil.  

Portugal em destaque

Share-PSI 2.0 report 1Experiência portuguesa que o presidente da entidade anfitriã, Paulo Neves, aproveitou para partilhar logo na sua intervenção de boas vindas. Um retrato da estratégia open data em Portugal num cenário internacional de grande ascenção para a abertura de dados.

«O open data tem vindo a tornar-se um tema quente nos últimos anos. E é interessante assistir á importância crescente que o tema tem vindo a assumir nas agendas nacionais e internacionais. Dos Estados Unidos à União Europeia, do G7 à OCDE, de repente o open data passou a ser uma constante. Toda a gente está a discutir o tema e toda a gente quer fazer parte desta revolução», sublinhou o presidente da AMA. 

Uma evolução em que, segundo Paulo Neves, «o open data deixou de ser um tópico obscuro e geek para passar a domínio sexy e transversal com impacto nas esferas económica, social e política».

Para o presidente da AMA, a experiência portuguesa com o portal nacional de dados abertos Dados.Gov demonstra bem esta evolução:

«Há 3 anos atrás, tivemos de andar a bater à porta de toda a gente a pedir dados para integrar a nossa plataforma nacional de dados abertos. Hoje em dia, várias coisas mudaram. Uma delas é o facto da AMA estar a ser progressivamente contatada para colocar a sua plataforma ao serviço de alguns projetos».

Apesar do caminho percorrido e dos resultados conseguidos pelo portal Dados.Gov, Paulo Neves confessou-se «insatisfeito» quanto ao volume de datasets disponíveis e ao nível de reutilização dos dados disponibilizados. Por outras palavras, concretiza o presidente da AMA, «não temos a certeza se o esforço de disponibilização de dados está a ter o impacto necessário».

Mas esta é uma insatisfação de sentido positivo. «A AMA está profundamente comprometida com as abordagens ao open data e o facto de não estarmos satisfeitos será provavelmente o melhor sinal do nosso compromisso», concluiu Paulo Neves.

Mais open data em Portugal

Share-PSI 2.0 report 3A experiência open data de Portugal foi depois aprofundada numa sessão inteiramente dedicada aos especialistas nacionais que se têm destacado pelo seu trabalho, projetos e iniciativas no domínio dos dados abertos.

Em grande destaque esteve claramente o portal nacional de dados abertos Dados.Gov, da responsabilidade da AMA. Depois da intervenção inicial do presidente da instituição, coube ao responsável que na AMA lidera o projeto, João Ricardo Vasconcelos, partilhar com a audiência internacional o detalhe da estratégia e dos resultados das iniciativas de abertura do governo português.

Uma intervenção que começou por sublinhar o papel das tecnologias de informação e comunicação (TIC) como um dos maiores facilitadores da abertura dos governos e das administrações públicas, com impacto determinante na transparência e na participação dos cidadãos.

Mas para João Ricardo Vasconcelos, os impactos do open data vão hoje muito além destas dimensões:

«A abertura já não se resume à transparência. Hoje em dia, a abertura também é uma questão de economia. E este argumento económico é decisivo para captar a atenção dos decisores políticos para a aposta em abordagens ao open government e smart government».

Uma aposta na abertura que, em Portugal, teve um marco incontornável há cerca de 3 anos com o lançamento da plataforma nacional de dados abertos Dados.Gov. O responsável da AMA recorda que «quando lançámos o Dados.Gov não tínhamos a ambição de inventar a roda. Aproveitámos a experiência de vários países que já estavam apostados na abertura de dados, como o Reino Unido e os Estados Unidos da América».

E ao fim de 3 anos de abertura de dados públicos, os resultados provocam no responsável da AMA o mesmo sentimento de insatisfação inicialmente partilhado por Paulo Neves, porque «os indicadores que estamos a receber da utilização dos dados disponíveis não nos deixam totalmente satisfeitos».

A estratégia passa agora por partilhar. Ou seja, colocar ao serviço dos projetos de outras entidades públicas os recursos e a tecnologia disponibilizados pela plataforma Dados.Gov. «O que estamos a tentar agora é explorar o portal nacional de dados abertos Dados.Gov como plataforma partilhada que pode ser usada por outras entidades públicas, de nível nacional ou local», sublinhou João Ricardo Vasconcelos.

E já há exemplos da nova estratégia de partilha que agora orienta o Dados.Gov. O responsável da AMA destacou como exemplos o Portal de Transparência Municipal recentemente lançado e o Mapa do Cidadão que brevemente irá permitir ao cidadão navegar e descobrir os serviços públicos sobre a geografia do mapa de Portugal. São dois exemplos de projetos desenvolvidos por diferentes entidades públicas que já tiram partido do Dados.Gov para alojar, aceder e transformar os dados em aplicações de visualização ao serviço do cidadão.

O contributo da sociedade civil

Share-PSI 2.0 workshop lisboa reportNo primeiro dia do evento, o panorama da abertura de dados em Portugal não se resumiu aos projetos liderados pela administração pública. Sendo o tema do workshop centrado na exploração comercial dos dados públicos abertos, a sociedade civil também foi chamada a partilhar com a audiência internacional as suas iniciativas, expetativas e desafios.

O Instituto Pedro Nunes, de Coimbra, aproveitou para realçar a aposta da instituição na investigação e desenvolvimento de competências na área do open data, que se tem vindo a traduzir em vários projetos. Entre outas iniciativas, o representante do instituto de Coimbra, Bruno Almeida,  apresentou o projeto One.Stop.Transport, uma plataforma baseada em dados abertos que serve a mobilidade urbana.

À experiência da academia juntou-se o testemunho da sociedade civil. A intervenção do grupo de trabalho Transparência Hackday, pela voz de Ricardo Lafuente, destacou alguns dos desafios com que os atores da sociedade civil se debatem quando decidem apostar no desenvolvimento de aplicações e serviços baseados em dados.

Desafios que aumentam quando a informação é detida pela administração pública. A apresentação de Lafuente sobre a experiência do projeto Democratica, que recorre aos dados da  Assembleia da República para acompanhar e analisar a atividade parlamentar, acabou por evidenciar alguns desses desafios.

Os jornalistas também foram convidados ao debate. A relação entre os dados e os jornalistas ficou a cargo de Ana Martinho, professora convidada do ISCTE e editora do Observatório Europeu de Jornalismo que, o longo dos últimos anos, tem vindo a especializar a sua atividade e investigação no domínio do jornalismo de dados.

Ana Martinho começou por destacar alguns dos melhores exemplos de jornalismo de investigação baseado na análise de dados, protagonizados sobretudo por meios de comunicação social internacionais. Excelentes exemplos de uma tendência que, segundo a professora do ISCTE, infelizmente ainda não faz caminho na generalidade dos media, porque os obstáculos e constrangimentos ainda são muitos.

A limitação dos dados disponíveis, a falta de competências das equipas nas redações e o constrangimento financeiro que aperta os meios de comunicação social, são os principais fatores a dificultar um maior crescimento do jornalismo de dados, na opinião de Ana Martinho.

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